Encontro Nacional

Encontro Nacional

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Recompensa

Ser líder em uma organização não é algo necessariamente fácil, muitas vezes são indispensáveis tomar certas atitudes que não agradam ao líder, mas são imprescindíveis ao bom funcionamento da organização. Em tempos de revolução industrial ser líder era basicamente fazer cumprir, mandar, obrigar e descartar os que não serviam. Já no século XX começa o movimento em que as lideranças passam a ser objetos de estudo, tendo obras de autores como Peter Drucker que conceituam uma liderança eficaz. No entanto, estas lideranças ainda eram observadas do ponto de vista da tarefa a ser desenvolvida. Já no final da década de noventa, início dos anos dois mil, uma nova corrente aponta o líder como alguém que congrega pessoas para conquistar objetivos. Esta pequena retrospectiva mostra que os tempos mudaram, as pessoas mudaram e as lideranças precisaram mudar para continuar atingindo seus objetivos dentro da organização.
No Brasil atualmente há uma dificuldade na retenção de mão de obra, as pessoas entram numa organização e logo estão de saída. Entre os vários motivos um deles chama a atenção: a dificuldade na ascensão dentro da estrutura organizacional, ou seja, a demora em ser promovido. Em tempos onde tudo precisa ser muito rápido, mostrar que mudar de posição dentro da empresa é lento pode realmente ser problemático. É justamente neste ponto que o líder pode entrar e exercer um papel fundamental na retenção das pessoas na organização, assim como encaminhar de volta ao mercado de trabalho os que não têm a ver com a empresa. O papel do líder agora, muito mais do que no passado, é formar as próximas gerações de líderes, mostrar o caminho que deve ser trilhado para chegar onde ele está e, principalmente, mostrando como é bom estar onde ele está.
Vamos fazer um raciocínio simples, imagine que eu sou um líder, mostro que o caminho até a liderança é difícil, um “vale de lágrimas”. Ainda mais, demonstro que ser um líder é resolver todos os problemas da empresa sem jamais ouvir um obrigado ou ser recompensado. Se um líder expressa isto com relação ao seu cargo ou à sua organização fica realmente bastante difícil captar ou reter talentos. Uma liderança é uma via de expressividade da organização com seus colaboradores, sendo que, quanto mais alto o posto ocupado por uma liderança, maior a responsabilidade com o que expressa para seus liderados. Muitos querem ser os proprietários da empresa porque entendem que a recompensa dos sacrifícios de ser donos são recompensadores mesmo que em muitas oportunidades o proprietário expresse que estar no seu lugar não é fácil, que teve muitas dificuldades até chegar onde está mas ainda assim vale a pena.
Desta forma, utilizar a expressividade enquanto líder como forma de mostrar que o caminho até chegar a um cargo de liderança não é fácil, mas que é recompensador, será também uma forma de reter os talentos. Existem muitas organizações nas quais colaboradores trabalham por muito tempo somente porque sabem que existe a possibilidade de assumir um cargo de liderança. Mas não porque querem ser líderes naquela empresa, mas porque as recompensas naquela organização estão além de qualquer dificuldade que exista pelo caminho. Expressividade não é somente falar, dizer, escrever, expressividade é algo que vem de dentro, algo que está em mim e vai em direção ao outro enquanto comunicação sincera.
Então, uma das formas de se captar ou reter futuros líderes é mostrar que o caminho até chegar pode ser um pouco difícil, exigente, mas que as recompensas serão muito maiores. Mostrar que minha empresa é um local onde eu quero estar, gosto de estar, que eu recomendo, esta é a postura de um líder que expressa ao seu colaborador como é bom estar na posição onde ele está. Dificilmente alguém irá querer algo que não gosta, usualmente se quer algo que se entende como bom.

Rosemiro A. Sefstrom

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Quem somos!

Em nossa vida, nem sempre somos os primeiros, nem precisamos ou até mesmo queremos ser. Assim acontece no consultório, lugar onde a vaidade de achar que se sabe alguma coisa sobre o homem, as pessoas, o ser, cai por terra trinta segundos depois de olhar para o outro. Quando olhamos no fundo dos olhos, não interessa a idade, sabemos que aqueles olhos, além de tudo que se possa dizer, nos trazem uma representação de mundo. Além dos olhos temos ainda todos os outros cinco sentidos, além daqueles que ainda não conhecemos, mas podemos conhecer na singularidade existencial. É no consultório e com este outro, diferente de mim, com quem vou construir uma caminhada, longa ou curta, tanto faz, mas uma caminhada que leve o outro à paradeiros por mim ainda desconhecidos.
Quando a pessoa senta-se diante de mim, numa sala de aula, numa conversa, no consultório, sei profundamente que não sei nada além daquilo que sei. Devo estar profundamente aberto, por meio dos olhos, ouvidos, olfato e todos os outros sentidos, para poder acompanhar a pessoa em sua caminhada. As minhas ferramentas, apenas teorias, quem me dá é o outro, pessoa da qual terei de tirar a experiência para poder vencer o caminho que ela me propôs quando começou a partilha comigo. A coragem, o ser destemido, nada além de boatos, sou como um ser qualquer, que tem medo, chora e erra, mas ao lado daquele outro preciso ser mais forte que ele ou ser mais fraco, para que ele seja forte.
Depois de um tempo caminhando juntos me sinto ambientado, acho até que posso perguntar algumas coisas, conhecer de maneira interessada o que ainda não está claro para mim. Mas mesmo quando pego e tomo a direção da conversa faço de maneira singela, simples, de acordo com a caminhada do outro. Com minhas perguntas conheço um pouco melhor os porquês, significados, lembranças, sentimentos, verdades, enfim, conheço um pouco melhor o caminho e a maneira de caminhar deste outro. Quando percebo que minhas perguntas causam dor, procuro parar e retomo o mesmo assunto por outras veredas, que causem menos sofrimento.
Caminhando junto aprendo a seguir o ritmo do outro, seu tempo. O meu de nada serve. De nada me adiantaria entrar no mundo do outro e caminhar à frente dele, pois não veria o que ele vê. Sigo seu passo, marco a passada e caminho junto, se possível respiro no mesmo ritmo, quem sabe assim sentirei como é estar no lugar dele. A cada paisagem que acompanho olho atentamente, não para o que gostaria de ver, mas para aquilo que o outro quer me mostrar. Olho o seu mundo pelos seus olhos, durante esta caminhada deixo meus olhos guardados para as minhas coisas.
Quando a caminhada já está avançada, conhecendo bem o caminho e o caminhante, com minhas ferramentas sugiro formas mais adequadas de se caminhar, ferramentas mais eficientes ou até mesmo eficazes para o trajeto que o outro caminha. Agora, com todo o percurso que percorremos juntos, sou tão próximo dele que algumas vezes posso retirar um obstáculo do caminho antes mesmo que ele escolha caminhar por aquela estrada.
Sei profundamente que não sou eu o ator principal nesta caminhada, e sim, o outro. Sou um coadjuvante, aquele que aparece bem no fundo das cenas. Não é para ser o primeiro, nem o último, mas é para estar sempre ao seu lado que sou o que sou e faço o que faço. Eu sou um Filósofo Clínico e trabalho com gente.

Rosemiro A. Sefstrom

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Quem sabe...

Hoje é seu dia! Após jogar na loteria você foi sorteado (a) e tem a sua inteira disposição cem milhões de reais, e agora? O que você faria com o dinheiro? Mas, antes de pensar o que faria com o dinheiro vamos pensar um pouco melhor: como você faria para receber o dinheiro? Sabe-se que o Brasil não é o lugar mais seguro, seria interessante tomar alguns cuidados para receber o dinheiro sem expor-se ou expor as pessoas com as quais você convive. Voltando ainda um pouco mais, quando você conferisse o bilhete e percebesse que o mesmo estava premiado, sua comemoração seria em grande estilo? Como comemoraria? Lembre-se, ao comemorar muito explicitamente ficaria claro que você é o novo(a) rico (a) da vizinhança, atraindo atenção de muitas pessoas, inclusive as que não se quer. Pensar em como fazer para comemorar, como ir receber o dinheiro e muito mais, em como gastar o dinheiro é um exercício de elaboração de hipóteses.
Hipótese em Filosofia Clínica é um tópico específico que cuida de como a pessoa elabora ideias do que fazer com relação ao que acontece. Uma das situações mais comuns de ver uma pessoa elaborando hipóteses é quando se fala em loteria, neste momento a imaginação voa, a pessoa se abre às possibilidades. As possibilidades são exatamente as hipóteses que surgem, ou seja, quando uma pessoa pensa em mais de uma maneira possível de se fazer algo, está criando outras hipóteses. Citamos a loteria justamente porque nem todas as hipóteses que uma pessoa elabora se tornam realidade, muitas delas sequer são possíveis de realizar. Em se tratando de loteria, na maior parte dos casos nem a hipótese de ganhar se realiza, a pessoa passa a vida apenas nas hipóteses.
Por falar nisso, existem pessoas que são muito boas em criar opções para outras pessoas, no entanto, para elas mesmas não conseguem ver mais de uma alternativa para suas questões. É como um empresário que ao observar o problema do outro vê saída por vários caminhos, mas quando olha para a própria empresa não vê chances. Pessoas assim muitas vezes são tomadas com descrédito, isso porque elas estão em situações desfavoráveis, mas mesmo assim apresentam soluções para os outros. Um dos exemplos é o crucificado que estava ao lado de Jesus, dizia ele: Se és Filho de Deus, então desce da cruz! Ajuda a ti mesmo e a nós!” É importante frisar aqui que o crucificado via em Jesus alguém que iria salvá-lo da cruz tirando-o de lá. Mas, como exemplo, é interessante perceber que o prisioneiro mostra a ideia de que só apresenta solução aquele que não tem o mesmo problema.
Outro tipo de pessoa que encontramos em muitos lugares são as pessoas hipotéticas, seres humanos peculiares que tem a incrível habilidade de elaborar hipóteses e não colocar nenhuma em prática. São conhecidos em muitos lugares como sonhadores, pessoas que vivem nas nuvens, para as quais o mundo sempre será melhor, mas que não é porque não colocam em prática suas hipóteses. Alguns criaram empresas em diversos ramos, viram os lucros, os perigos, estão até colhendo os resultados dos lucros, mas apenas hipoteticamente. Nem todos têm condições de passar das ideias para a prática, elaborar hipóteses pode ser uma boa maneira de aliviar a vida dura cotidiana.
Hipóteses são ideias que podem futuramente ser testadas, mas que não necessariamente serão. Cada um tem seu jeito de elaborar hipótese: alguns são otimistas, outros pessimistas, uns elaboram muitas, outros são menos criativos. Pensar nas diversas maneiras possíveis de se fazer algo, para algumas pessoas, pode ser uma das maneiras de continuar fazendo da maneira como sempre foi feito. Nem todas as pessoas aceitam que “quem sabe dá certo”. A certeza pode ser um porto seguro, mas as possibilidades são as emoções de um mar aberto.

Rosemiro A. Sefstrom

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Quanto vale uma vida?

Antes de qualquer resposta a priori é necessário entender que não há uma medida de valor que possa quantificar uma vida. Cada ser em sí é único, insubstituível, com suas características, jeito de ser, maneira de ver o mundo. No entanto, é interessante pensar em algo que comumente se vê e não se percebe: que a vida de uma pessoa é tratada, em muitos casos, a partir de um juizo de valor.  Nesses casos, nem sempre muito claros, as pessoas que dependem do outro ficam a mercê de seu juízo de valor. Em Filosofia Clínica todo o juízo de valor é chamado de axiologia, assim como na Filosofia Acadêmica. Assim, axiologia me diz o que é importante para a outra pessoa, ou seja, o que ela considera importante para si; não necessário, mas importante.
Hoje pela manhã ao ver o jornal, deparei-me com uma notícia muito comum nos dias de hoje. O jornalista dizia que um jogador de futebol engravidou uma moça. Até então normal, mas o que espanta é dizer que o jogador já avisou a família que cumprirá com todas as obrigações financeiras. Não conheço o jogador e muito menos a moça, mas se pode perguntar: qual é o valor desta vida gerada pelos dois? Posso arriscar, talvez cometendo um erro vergonhoso, mas parece que para ela ter um filho é garantir uma boa quantia em dinheiro para si, o filho é um meio para ganhar a vida. Para o jogador o filho é a consequência de uma atitude que vai lhe custar dinheiro, só. A vida de uma pessoa que ainda nem nasceu já tem preço.
O filme “Antes de Partir”, estrelado por Jack Nicholson no papel do rico empresário e dono do hospital Edward Colen e Morgan Freeman no papel do mecânico Carter Chambres, apresenta uma brilhante história que mostra o fim da vida de dois homens que morrerão de câncer, Neste filme, ao chegar ao hospital, por se saber uma pessoa simples, humilde, Chambers pede apenas que o médico olhe seus exames. O mesmo se nega, pois não é sua competênca, isso deveria ser feito pelo médico que acompanhava seu caso. Em contrapartida, o rico Colen reclama do fato de ser colocado em um quarto com outra pessoa, quando ele mesmo disse que hospital não é hotel.  Naquele momento ele se colocou acima de todas as outras pessoas, queria que fosse feita a sua vontade, como se afirmasse que “a vida de uma pessoa tem seu preço e é sempre menor que o meu”.
Ontem, um daqueles jornais sensacionalistas noticiava a morte de uma jovem pelo namorado. Segundo a notícia, o jovem assassinou a ex-namorada a facadas porque estava apaixonado por ela e ela o deixou. Não é difícil ver meninos e meninas que condenam o seu companheiro ao seu amor, alguns condenam a si próprio. Um amor que sufoca, que faz do outro objeto de uso, que transforma a outra vida em posse. A vida tem valor quando é minha, se não for minha não será de ninguém.
Desde sempre, para não dizer há muito tempo, israelenses e palestinos que vivem num pequeno pedaço de terra no Oriente Médio estão em guerra. Lá, antes de tudo, sua guerra é por terra e água, recursos escassos naquela região. Um pouco além deste lugar, outras regiões também estão em guerra e além de terra, água, riquezas e poder existe a questão religiosa envolvida. O interessante é que a maioria das religiões prega o respeito e o valor à vida, mas apóiam práticas violentas contra pessoas que não têm o mesmo credo. Estou falando de países distantes, mas aqui, do lado da nossa casa, pode haver uma pessoa de outra religião. Alguns pensam: “a vida dessa pessoa tem valor se ela tiver a mesma religião que eu.”
Não é por um destes fatores isolados, mas o conjunto de vários fatores que mostra para cada um quanto vale uma vida. Pense um pouco sobre isso, veja se as suas atitudes mostram que você valoriza a vida. Lembre-se que, assim como você mede, também pode ser medido.

Rosemiro A. Sefstrom

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Qual a sua lógica?

No mundo, segundo especialistas de várias áreas, existe uma lógica no processo que chamamos viver. Essa lógica, segundo os mesmos, regulamenta nossa forma de viver e faz com que sejamos quem somos. Há uma lógica na movimentação dos fluidos, há uma lógica na movimentação das massas de ar, há uma lógica para explicar as reações químicas que acontecem no cérebro. Enfim, a lógica é a parte da filosofia que cuida para que as coisas possam ter certo sentido, ou seja, para que uma argumentação possa ser conduzida corretamente das proposições ao juízo. O juízo, conclusão, só será considerado correto ou verdadeiro na medida em que respeitar as proposições. Um dos exemplos mais famosos de lógica é: Todo homem é mortal, Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal. Perceba que o movimento da primeira proposição até a conclusão se complementam.
Esse exemplo de lógica funciona muito bem no papel, num raciocínio matemático, algébrico, mas será que funciona tão bem assim na vida? Será que um pensamento lógico é assim tão exato na vida? O que se percebe no consultório é que não. Algumas pessoas me procuram com uma questão parecida com esta. Dizem: “Doutor, ele é ruim comigo, ele é grosseiro com minha família, ele só tem interesses em mim e eu gosto dele”. O que a moça quer dizer é: “Mesmo tendo todos os motivos para se afastar desse rapaz, ela gosta dele”. Mas, muito diferente do papel, onde o pensamento se desenvolve com base na razão, ao menos deveria, na vida utilizamos outras ferramentas para se chegar a uma conclusão que não fecha com a lógica.
Cada um tem sua lógica interna, como diz um filme, alguns seguem a lógica do amor. Pessoas estas que seguem de maneira quase que cega o que o seu coração aponta. Muitas vezes se arrebentam na vida, pois a pessoa por quem se apaixonaram não lhes quer. Outros seguem a lógica de mercado, para estes o que tem maior valor (preço) é o que orienta as suas lógicas de pensamento. Há também as pessoas que usam a lógica do prazer, muitas delas caem na vida pelo álcool, drogas, pois é o prazer quem comanda esta lógica. A lógica de cada um é o que chamo de lógica existencial e para cada um ela tem sua forma de chegar a num resultado verdadeiro.
Mas, mesmo que cada um tenha a sua lógica, às vezes, essa lógica não coincide com a lógica do outro. Veja o caso de uma menino que pensa consigo que, se ele amar muito uma menina, se dedicar integralmente a ela, ela também vai amá-lo. Só que para a menina, objeto de seu amor, um homem que tenha muitas posses, na sua cabeça é aquele que vai fazê-la feliz e não o que a ama. Para o menino é o amor, para a menina são as posses. Quando a conta não fecha é natural que em algum lugar fique aparente que algo está errado. Algumas vezes é o casamento que não dura, são lógicas diferentes tentando conviver no mesmo espaço.
Há ainda a lógica da fé, segundo a qual, se o meu relacionamento com Deus for bom, eu rezar obterei sua ajuda. Mas, para muitos fieis Deus deve ter tirado uma folga, não é fácil de entender como que alguém que rezou toda uma vida, foi muito devota, morreu esperando seu auxilio. De vez em quando se vê uma família se perguntando e perguntando a Deus sobre o assunto, a lógica não fecha.
É assim mesmo, assim como cada um de nós tem a sua lógica, Deus também deve ter a dele. Entender qual é a minha lógica torna mais fácil entender quando as contas não batem, perceber que algo está errado. Não porque esteja errado, mas por que na minha forma de pensar não é certo. Mas, mesmo assim, tenho de entender que o meu modo de se chegar a um resultado não é o único, posso estar errado.

Rosemiro A. Sefstrom

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Propagação do EU

Prazer, meu nome é Rosemiro A. Sefstrom. Para você que acompanha semanalmente o que escrevo, quem sou? A descrição que fizer de mim é aquilo que de mim, chega antes mesmo que tenhamos qualquer contato. Pode ser que um dia nos encontremos pela rua, você converse comigo e diga: “Mas este não é o Rosemiro que escreve no jornal, é diferente”. De acordo com Heidegger o que se propaga de mim chega antes de mim pelo que vivi até o momento, em outras palavras, sou o reflexo do meu passado. Agora, este reflexo existe na medida em que está sendo construído. Caso eu pare, comece ser diferente, provavelmente o meu futuro EU também já não será o mesmo. Para o filósofo Heidegger, o Ser está atrelado ao Tempo, daí o nome de sua obra prima Ser e Tempo.
Dando continuidade aos trabalhos de Heidegger vem o filósofo Francês Jean Paul Sartre, conhecido por ser o fundador do existencialismo. Este filósofo se apropria do conhecimento da obra de Heidegger e escreve “o Ser e o Nada”. Nesta obra o filósofo trabalha o conceito de liberdade em seu extremo, dizendo que o homem está condenado a ser livre, em todo momento é ele quem escolhe. Em Sartre o homem é sempre responsável por aquilo que escolhe, não pode de maneira alguma outorgar sua liberdade de escolha ao outro, pois, segundo ele, até mesmo quando outorga sua liberdade de escolha foi por opção que o fez. Completando Heidegger pode-se dizer que Sartre leva o Ser, a existência na direção da responsabilidade do que propaga de si.
Sendo até certo ponto simplista ao falar de modo vulgar sobre as obras de Heidegger e Sartre quero acrescentar que a cada momento sou responsável pelo que se propaga de mim na direção futura e na direção do outro. Então, você, quando chega a algum lugar e a opinião que se tem de você não é das melhores é provável que seja isso que se propagou de você pela sua maneira de ser. Na prática, se seu nome é anunciado por alguém antes mesmo de você chegar e a opinião a seu respeito é ruim, foi isto que se propagou de você. Não há como responsabilizar o seu passado pelas suas escolhas, porque a cada momento há uma nova escolha. É responsabilidade minha, sua, nossa, construir o nosso ser, da maneira que melhor nos aprouver ou da maneira que soubermos fazer.
Tanto Heidegger quanto Sartre foram vítimas de suas próprias filosofias, pois Heidegger passou a ser conhecido como o filósofo do nazismo, assim como Sartre ficou conhecido como o filósofo comunista. Tanto um quanto outro são provas de que o que viveram se propagou para depois deles e sua vida continua mesmo depois de sua morte. De certa maneira ainda são Ser, ou seja, ainda existem entre nós, participam ativamente de nossas vidas e em muitos casos governam nossos destinos. Ser é um exercício constante, no qual somente EU me atualizo a cada instante, sou EU em construção.
Você, enquanto lê pode olhar para a própria vida, para as próprias escolhas e dizer: “Mas o que se propaga de mim não sou eu mesmo”. Pode não ser o que você deseja ser, mas é o que “está sendo”, ou, como pode ser lido em Heidegger, é o que está posto. EU posso ser quem eu quiser, tenho liberdade para escolher, não posso colocar culpa no passado, nem nas amarras que tenho, sou sempre eu mesmo obrigado a ser livre, condenado a escolher. Humano, ser que se propaga para além de si mesmo e pode construir-se a cada momento de sua existência: assim somos Nós.

Rosemiro A. Sefstrom