Encontro Nacional

Encontro Nacional

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Suicídio

Já estive envolvido em muitas conversas sobre suicídio, na maior parte delas surge uma pessoa que afirma: “A pessoa que se suicida, nada mais quer do que matar alguma coisa em si”. Para quem diz isto, o suicida na verdade quer apenas se desfazer de algo em si mesmo. No entanto, como o ser humano é um todo e não há a possibilidade de separar apenas a parte que a pessoa não suporta mais, o suicídio acontece. Estas pessoas, por não saberem como matar, ou seja, retirar de si aquilo que as aflige, acabam por retirar a vida corporal.
Em Filosofia Clínica, o entendimento é de que o ser humano é um todo, mas este todo é constituído de partes, algumas mais e outras menos divisíveis. Quando um filósofo clínico interage com uma pessoa no consultório ele a observa como um todo, ou seja, como uma pessoa que lhe procurou. Mas, ao longo do processo ele coleta a história de vida da pessoa e com esta história monta o que chamamos de Estrutura de Pensamento. Esta estrutura nada mais é do que o conteúdo da história compartimentado segundo sua peculiaridade. Desse modo, o que a pessoa diz de si mesmo é o tópico 02. O que a pessoa disser no consultório a respeito de medo, amor, ódio, alegria, etc., são conteúdos, por exemplo que serão categorizados por emoções.
A montagem a Estrutura de Pensamento leva em conta trinta tópicos, ou seja, trinta identidades diferentes que o conteúdo da história de vida da pessoa pode ter. Esses trinta tópicos podem estar em relação harmoniosa, quando a pessoa sente-se bem, vive um bem estar subjetivo. Mas, estes conteúdos também podem estar em choque e quando isso acontece diz-se que há choque entre tópicos. Seria o caso de uma pessoa que tem medos terríveis de ficar sozinha, mas não consegue manter o casamento.  O mal estar subjetivo vai ser mais ou menos evidente de acordo com cada pessoa, algumas podem estar morrendo por dentro, mas nem a pessoa mais próxima perceberá.
Quando dois tópicos entram em choque, em algum tópico da Estrutura de Pensamento a pressão aparecerá. O exemplo mais corriqueiro é aquele em que o empresário tem uma série de decisões para tomar, mas não sabe se o resultado será bom ou ruim à empresa. Isso o incomoda por alguns dias e logo lhe aparecem aftas na boca, outros têm gastrite, alguns emagrecem e assim será diferente para cada pessoa. No exemplo acima, o choque entre dois tópicos causou uma pressão nas sensações que apareceram em forma de afta, gastrite ou emagrecimento.
Retomando o caso do suicídio, agora conhecendo um pouco mais de Filosofia Clinica, a pessoa pode sim, querer tirar apenas uma parte dela e por isso acaba tirando a própria vida. Mas, assim como um cirurgião corta e retira do corpo um nódulo, também é possível que o filósofo ao longo de um trabalho terapêutico retire da pessoa aquilo que tanto lhe faz mal. Para algumas pessoas, a terapia parece não ser a solução para o seu problema, mas pedir ajuda, significa entender que muitas vezes na vida é preciso caminhar acompanhado.
Tudo o que está escrito acima sobre o suicídio é apenas uma das possibilidades, faço questão de deixar claro que não existem duas pessoas iguais. Para muitas pessoas, o suicídio será totalmente diferente do que está acima, podemos lembrar o caso de Getúlio Vargas que em carta deixou registrado o que foi o suicídio para ele: “Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Rosemiro A. Sefstrom

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sísifo

Um mito muito conhecido na filosofia mas pouco conhecido no senso comum é o Mito de Sísifo. Este conta a história de um jovem de nome Sísifo, o qual era muito astuto e enganou os deuses por duas vezes. Cada uma das vezes que enganou os deuses foi reconduzido ao Tártaro, algo similar ao inferno. Na terceira vez que foi aprisionado, recebeu o castigo de rolar uma pedra de mármore até o topo de uma montanha. Cada vez que atingir atingisse o topo rolando a pedra, ela rolava novamente até o ponto de início e ele começava tudo novamente. Este mito tem diversas interpretações. Albert Camus, por exemplo, fala que mostra alguém que queria viver a vida ao máximo e foi condenado a uma tarefa sem sentido. Algumas pessoas fazem o mesmo que Sísifo: passam a vida rolando conteúdos existenciais que deveriam ser deixados de lado, abandonados pelo caminho. Mas, quando mais se dedicam a estas coisas, como o personagem à sua pedra, mas estas coisas fazem parte de sua vida.
Naturalmente aprende-se que o que desejamos afastar deve ser empurrado para longe e lá deve ficar. Isso pode ser visto em diversos lugares de nosso cotidiano: quando uma pessoa não quer mais um sofá, ela o pega e leva ao lixo. Dali o velho sofá segue o seu caminho até que não exista mais. Assim também acontece com a sujeira do corpo, toma-se o banho e ao lavar-se a água leva embora o que nos matinha sujos. Só que não aprendemos como afastar aquilo que existencialmente está em nós, ou seja, afastar algo que é parte nossa. Não foi ensinado o que fazer com a mágoa que corrói o coração, com um amor que sabidamente não pode ser vivido, com a dor da perda de alguém que pode ser irremediável. Não é possível depositar estas coisas num saco plástico colocá-lo no cesto que fica do lado de fora do muro e esperar que alguém dê o destino. Assim como não é possível entrar em baixo do chuveiro ensaboar-se e tirar com água aquilo que maltrata a alma.
O que se ensina como maneira de lidar com este tipo de dor é que devemos colocar para fora, vivenciar, não desviar a cara, enfrentar o que tanto incomoda. Em todos estes ensinamentos a pessoa é levada em direção aquilo que traz sofrimento e mais do que isso, é obrigada a vivenciar esta dor supondo que passará. Em alguns casos, somente pesquisando a história da pessoa é que saberemos se é assim para ela, se é possível realmente que a pessoa viva a dor e depois siga a vida em frente. Em muitos casos, ao vivenciar a dor a pessoa está aumentando aquilo que gostaria de diminuir, ou seja, ao tentar afastar-se ela está fazendo o contrário. Este movimento de aparente solução é um método não apropriado em muitos casos, a pessoa ao reviver a situação falando, vendo, lendo, ouvindo está tornando o sofrimento presente em sua vida.
Para exemplificar: há pessoas que buscam desesperadamente livrar de si a inveja e prestam tanta atenção nela, cuidam tanto dela que isso faz muito mais parte de sua vida do que a humildade.
 Pessoas que se concentram muito na dor, em sua forma, dimensão, extensão, estão fazendo desta dor muito mais parte de si do que os bons pensamentos que podem ter. Quando se coloca algo a frente da pessoa e ela se coloca a empurrar, enquanto estiver empurrando, este objeto fará parte dela, de suas vivências de seu ser. Se a pessoa coloca a sua frente amor, amizade, perdão, humildade, isso será parte dela, e estes caracteres serão muito mais parte dela do que coisas com as quais ela não se ocupa. Nem tudo que se deseja afastar é necessário empurrar, algumas coisas estão passando e só farão parte da vida se houver dedicação em torno delas.

Rosemiro A. Sefstrom

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ser e Aparecer

História de vida, o que é isto? Quanto você olha para o passado e o faz reviver faz com os olhos do presente, mesmo que tente fazê-lo a partir do ponto de vista que tinha no passado ainda assim ele é presente. Esse olhar sempre atual da própria história de vida precisa de certo treinamento, sendo que o primeiro deles é entender que a história de vida não é a pessoa, mas um registro daquilo que viveu, por onde esteve. Se ao longo da vida você por um acaso cometeu “erros” isso não quer dizer que você seja uma pessoa errada, mas uma pessoa que cometeu erros. O contrário também é válido, fazer coisas boas não torna ninguém uma pessoa boa, mas uma pessoa que faz coisas boas. As atitudes de cada pessoa não necessariamente refletem o que ela é, mas sim o que ela faz com aquilo que ela é.
Certa vez conheci um jovem senhor de 70 anos, uma pessoa que cuidava das crianças do bairro, encaminhava para o escotismo, circo, cinema, leitura, enfim, cultura. Por muito tempo me pareceu uma pessoa muito boa, uma pessoa com uma história que dizia que ele era um homem muito bom. Cresci e tive a oportunidade de conversar com este mesmo homem anos depois, já em faze terminal, disse a ele que ele era um homem bom, exemplo de pessoa. Sua resposta me deixou confuso na época, hoje entendo perfeitamente o que ele disse. Disse ele: “Não sou um homem bom, vivi minha vida para mim, fiz sempre o que quis, sou orgulhoso, mesquinho, arrogante, prepotente. Quando vocês eram pequenos eu via em vocês bichos do mato e me achava muito melhor, por isso mostrava um mundo “melhor” para vocês, queria poder dizer para mim mesmo que fui eu quem os salvou da ignorância. Dei-me o direto de achar que o que viviam na pequena vila deveria ser mudado, a começar pelas crianças, por isso me arroguei o direito de intervir. Eu me achava a melhor das pessoas, porque ninguém ao redor sabia o que eu sabia, tinha viajado o que eu tinha viajado, por isso não escutava, falava, dava conselhos”.
Passei anos discordando, entendendo que se ele fez coisas boas é porque era uma pessoa boa. No entanto, anos mais tarde, depois de muita filosofia percebi que, ele via em suas atitudes a intenção por detrás delas. Filosoficamente a questão fica bem complicada, pois será que interessa o mérito interior de uma boa ação? Os mais religiosos provavelmente dirão que sim, mas e a história de fé sem obras é morta, será o oposto também é verdade? Que obras sem fé também são mortas? Voltando ao caso citado, esse homem mostrou e, mesmo depois de seu falecimento, ainda mostra que as atitudes de uma pessoa não mostram quem ela é.
Por isso, quando olhar para a própria história, com suas escolhas, acertos e erros, é necessário perceber que suas atitudes não são você, mas o que você faz com o que você é. Aos que cometeram erros ao longo da vida e sentem-se julgados pelos outros, basta lembrar que estes outros têm suas histórias. Podemos não ter orgulho de algumas escolhas que fizemos, mas podemos nos orgulhar das escolhas que são feitas agora, neste momento.
Por isso, se sua história contém coisas das quais você não se orgulha, veja o que pode ser feito deste momento em diante para se orgulhar. Se sua atitude no casamento mostra uma pessoa que você não é, pode ser feito diferente. Há uma única coisa que não pode se feita: legar a responsabilidade ao outro pelo passado que tenho, pois mesmo quando outorgo ao outro a escrita da minha história sou responsável por ela. Meu amigo fez muitas cosias boas mesmo se achando mau, uma pessoa pode fazer muitas cosias más se achando boa.


Rosemiro A. Sefstrom

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ser - Humano

Há em filosofia alguns termos ou formas de se abordar as relações. Tais termos foram trabalhados nos últimos artigos. O tema das relações está presente em nosso cotidiano, reforçado por determinadas notícias que se espalham pela televisão, internet e outros veículos de comunicação. Sendo assim, acredito ser pertinente, por exemplo, a notícia que apareceu numa terça-feira, dia 07 de fevereiro de 2012, referente à troca de casais que está ocorrendo num programa de televisão. Parece que aos poucos a relação entre uma pessoa e outra pessoa está se tornando uma relação entre uma pessoa e um objeto. É interessante observar que este comportamento não se vê só lá na televisão, também se vê no dia-a-dia, em casa, na escola, no trabalho, etc.
Nos artigos anteriores, talvez a linguagem usada, por se tratar de filosofia, tenha ficado um tanto inacessível. No presente artigo, usarei argumentações muito simples. Em Filosofia Clínica, há um termo chamado Interseção de Estruturas de Pensamento, ou seja, a relação que se dá entre dois seres vivos, a relação que se dá como troca. A Interseção de Estruturas de Pensamento supõe que eu entre em contato com o outro na medida em que ele entra em contato comigo, o outro pode ser uma pessoa ou mesmo meu animal de estimação. O outro na interseção é alguém que, como eu, contribui na relação e não é objeto dela. Uma interseção de EP, como é mais comumente conhecida, pode ser positiva, negativa, variável ou indefinida.
Desenvolver uma interseção, ou seja, amarrar laços com outra pessoa é se colocar e receber o outro num espaço de construção coletiva. Esse espaço normalmente não depende somente de uma das partes, mas das duas partes. Se, pela manhã você vai até a padaria comprar pães e é gentil com o vizinho que mora duas casas além da sua na direção da padaria, será que lhe será grosseiro? Ainda que ele o seja, a parte para a construção de uma interseção positiva partiu de você. Uma relação agradável na qual tanto eu quanto o outro estejam bem é uma interseção positiva.
Quanto você sai nervoso pela manhã, entra em seu carro e se transforma, fica grosseiro, mal educado, será recebido com gentileza? Neste exemplo, caso a interseção ocorra de maneira negativa, partiu de você. Este tipo de interseção se dá quando uma ou as duas partes não se sentem bem na relação.
Uma relação na qual você está com a pessoa e hora está bem, hora está mal, tanto para você quanto para ela, é uma interseção variável. E há ainda interseções que acontecem e que não se pode dizer se são positivas ou negativas, sendo caracterizadas provavelmente por indefinidas.
Mas veja, em todo o caso, as interseções se dão entre seres com vontade própria, com arbítrio sobre suas ações, pelo menos até certo ponto. Em se tratando de pessoas, não é você e nem ele o culpado, mas vocês. Mas, e numa relação com objetos inanimados, quem é o culpado quando o objeto estraga? Quem é o culpado pelo mal uso de um objeto? Diferente de uma interseção, onde você e o outro têm vida, numa relação em que você coloca o outro como algo separado, este outro se tornou objeto. Você, por si mesmo, pode se fazer objeto quando não entrar em interseção consigo mesmo como pessoa.
Ser: uma palavra que define movimento, indica o que cada um é agora, mas isto a partir de si mesmo e do outro. Uma interseção, ou seja, uma relação entre dois seres deve ser construída num espaço comum aos dois seres. Relacionar-se com coisas é se colocar acima delas, ter o poder de fazer nascer e morrer, talvez. O entendimento de que você não é objeto e o outro não é objeto deveria fazê-lo compreender que a sua vida está diretamente ligada a do outro, seja ele quem for.

Rosemiro A. Sefstrom

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dinheiro

Em Filosofia Clínica há um tópico chamado de Autogenia. Neste o filósofo estuda como os conteúdos da pessoa se relacionam e o que geram. No seu caso, caro leitor, a razão pode relacionar-se de maneira equívoca com a emoção e essa relação pode produzir brigas constantes com o namorado (a). O que acontece é que ao mesmo tempo a Estrutura de Pensamento da pessoa afasta e atrai. Explico: enquanto a razão diz que ele não presta, a emoção pede mais. Quando este conteúdo ganha movimento é estudado ainda de outro jeito, apontando ao filósofo quais os caminhos existenciais possíveis para a pessoa a partir de sua autogenia. A uma que está em harmonia interna diz-se que está autogenicamente bem, e nestes momentos tende a vivenciar coisas boas. Ao contrário, quando uma pessoa está em desarmonia interna, as coisas tendem a não andar bem e é provável que esta vai vivenciar coisas ruins de sua vida.
Quando alguém está autogenicamente mal, o ideal é propiciar harmonia interna a partir do que faz bem a ela. Suponha uma pessoa que esteja vivendo um momento difícil, com falta harmonia consigo mesma, só lhe acontecem coisas ruins. Ela vai ao filósofo e a partir do acompanhamento filosófico descobrem que algo que faz com que ela entre em harmonia consigo mesmo é um bom banho de mar. A pessoa já sabia disso, de certa forma até sentia falta de um banho de mar, mas a “falta de tempo” lhe impedia de ir ao mar para este banho. Outras pessoas, ao longo do acompanhamento, descobrem que o que lhes coloca em harmonia são trabalhos manuais como jardinagem, carpintaria, escultura, pintura, enfim. Tudo o que faz bem autogenicamente a uma pessoa é um bom vizinho, ou seja, vizinhos que podem promover harmonia na Estrutura do Pensamento.
Quando uma pessoa começa a perceber os vizinhos que lhes fazem bem pode escolher o que quer ter ao seu lado. Pode selecionar os elementos que quer ter como vizinho, como você que ao longo do seu dia pode escolher como vizinho as preocupações com o futuro, que causam incômodo, ou uma boa xícara de café, que lhe traz harmonia. O problema é que algumas pessoas não se conhecem e selecionam elementos que lhes fazem mal como vizinhos. Em uma aula perguntei aos alunos qual seria um vizinho que lhes traria harmonia interna e um dos alunos respondeu: “Dinheiro”. Segundo ele, o dinheiro traz tranquilidade e outras tantas coisas que lhe trariam harmonia interna. Depois de ouvi-lo atentamente perguntei ao aluno o que o dinheiro trazia consigo e ele não soube responder. Para você: o que o dinheiro traz consigo? Um bom vizinho traz consigo outros bons vizinhos, um mal vizinho traz consigo outros maus vizinhos.
Para algumas pessoas dinheiro é um péssimo vizinho, causa uma desarmonia enorme, traz sofrimento.  Quando isto acontece a Estrutura de Pensamento acaba por inviabilizar as oportunidades em que a pessoa poderia ganhar dinheiro. Assim, eu quero ganhar dinheiro, monto projetos, me esforço e não consigo, mesmo querendo, minha Estrutura de Pensamento, afasta as oportunidades de ganhar o dinheiro. Um exemplo bem prático: havia um amigo que sempre queria ganhar dinheiro, pegava bons trabalhos, iniciava ganhando bem, mas ao ser contrariado pelo chefe dizia: “Só porque ganha mais que eu quer ser mais que eu”. Um de seus valores, a humildade, não combinava com ter dinheiro. Como a humildade era muito mais forte do que ter dinheiro, todas as vezes que teve a possibilidade de ganhar bem, acabava “perdendo” a oportunidade.


Rosemiro A. Sefstrom