Encontro Nacional

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Texto sem contexto

Na semana passada abri o Facebook para postar o texto da semana e percebi que fui marcado numa imagem. Abri a imagem e junto a ela havia um texto bastante longo que falava sobre as palavras imutáveis da Bíblia, ou seja, que as palavras do texto Bíblico devem ser entendidas à risca. Uma das frases do texto: “Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo ou contrato alguém para fazer a vontade de Deus?” Essa é apenas uma das muitas frases que apontam a literalidade do entendimento bíblico. Cito ainda outro trecho do escrito: “Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levítico 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a minha esposa ? Eu tenho receio que ela se ofenda comigo”. Esse texto me fez refletir sobre princípios básicos que fazem da Filosofia Clínica uma ferramenta tão objetiva.
Uma das bases essenciais para o entendimento de qualquer pessoa para a Filosofia Clínica é a historicidade, ou seja, para os filósofos clínicos todo ser humano é dotado de história. A história é contada pela própria pessoa ao terapeuta que apenas ouve atentamente a construção de uma auto biografia. É claro que ao longo da narrativa alguns dados serão omitidos, outros mentidos, talvez distorcidos, aumentados, mas esta foi a maneira como a pessoa relatou. A história de vida da pessoa faz com que tudo que ela vive hoje ganhe contexto.
O contexto segundo o Dicionário de Filosofia de Abbagnano (...) é o “Conjunto dos elementos que condicionam, de um modo qualquer, o significado de um enunciado”. O contexto pode ser considerado o que em Filosofia Clínica chamamos de Exames Categoriais, ou seja, Assunto, Lugar, Tempo, Relação e Circunstância. Com as categorias, um filósofo pode identificar elementos que ao envolverem o enunciado podem significá-lo, pode dizer de onde aconteceu, em que tempo histórico, quais as relações, suas circunstâncias. Um texto sem contexto não é nada. Usando uma analogia pergunto: Como seria se você andasse de carro de boi? Bom, nada de anormal, mas se perguntasse um pouco melhor: Como seria se você andasse de carro de boi no centro de Criciúma? Isso pode lhe parecer muito estranho, mas é o que acontece com quem toma um assunto fora de seu contexto. O que se deve fazer é atualizar os dados de forma que eles possam se enquadrar nos novos contextos e aí sim ver se os assuntos ainda tem validade ou não.
Voltando ao caso da Bíblia, sem favorecer nenhuma religião, suas verdades são tomadas como imutáveis, ou seja, conteúdos atemporais. Em clínica muitas pessoas fazem o mesmo: pegam conteúdos de suas histórias e os tornam atemporais. Assim acontece quando o pai trata sua filha como uma menina indefesa, não esquecendo que o pai tem por volta de oitenta anos e sua filha cinqüenta. É assim que acontece quando uma mãe olha para um filho como o maior monstro do mundo por ele ter sido uma criança sapeca. Os dados históricos da vida dessas pessoas cristalizaram e com estes dados as suas práticas. Para não cometer o erro de tratar a pessoa com conteúdos caducos, o filósofo clínico precisa, além de fazer o Exame das Categorias, prestar atenção aos dados padrões e aos dados atualizados.
Os dados padrões são aqueles que indicam como normalmente a pessoa funciona, quais são os caminhos rotineiros no seu estado de ser. Já os dados atualizados indicam o que ao longo do tempo vem se transformando ou até mesmo o que mudou de uma semana para outra. Se os pregadores de verdades imutáveis abrissem os olhos aos dados padrões poderiam sim ver que há coisas que não mudam, mas há outras em que há muito não são as mesmas. Aquele pai que olha a filha como uma menina indefesa pode sim olhar para a filha como ela é, mas precisa atualizar dados como tempo, lugar, relação, circunstância. Entender que as práticas do passado estavam rodeadas de elementos que as condicionavam, que davam significados a elas. Se trouxermos as práticas do passado sem atualizarmos os elementos vizinhos elas podem ter um significado muito diferente do que se deseja.
Por fim gostaria de render os méritos do texto bíblico, segundo a postagem do Facebook, a Jodan Campos.


Rosemiro A. Sefstrom

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Isso é assim para mim!

Um dos diversos estudos da filosofia se chama de fenomenologia, um nome comprido e complicado, mas de entendimento bastante simples. A fenomenologia nasceu pelas mãos de Edmund Husserl, um dos mais influentes filósofos do início do século XX. Vindo do grego phainesthai, significa aquilo que se apresenta ou se mostra; unida à palavra também grega logos, neste caso significando explicação, estudo. Unindo as duas palavras temos o estudo dos fenômenos, ou seja, o estudo daquilo que se apresenta, se mostra. Desde a sua origem, a grande preocupação da fenomenologia é mostrar as coisas como elas são tanto quanto possível. Traduzindo de outra forma pode se dizer que a fenomenologia buscar ver as cosias como elas são para a pessoa, considerando-se que cada um apresenta maneiras diferentes de entender uma mesma informação.
Assim, se você levantar os olhos nesse momento e olhar tudo que está a seu redor vai perceber muitos fenômenos, pois muitas informações se apresentam aos seus sentidos e são transformadas em consciência. Mas, se você pedir que a pessoa sentada a seu lado faça o mesmo movimento de levantar os olhos e descrever o que ela vê, provavelmente fará um relato diferente do seu. Não que o que estava ao redor mudou, ou seja, ficou diferente, mas os conteúdos dos sentidos tornados consciência foram diferentes. Para você, por exemplo, a descrição pode ter como base elementos visuais, para a pessoa que está a seu lado a descrição pode ter como base dados olfativos. E, mesmo que tenham o dado visual como base, cada um pode e provavelmente vai perceber coisas diferentes. Isso não é bom nem mau, nem certo ou errado, mas a forma como cada um percebe o mundo que o rodeia.
Se isso for compreendido é possível entender que, quando seu filho fala que a cidade onde ele mora é suja, não tem o que fazer, é um lugar de pessoas mais velhas, é assim para ele. Seu filho não está dizendo que a cidade que você vê, uma cidade limpa, cheia de opções e muita gente nova, está errada. Ele apenas está apontando o que se apresenta às suas vistas, fenomenologicamente. A representação que cada um montou a respeito da cidade é diferente em função de diversas coisas, uma delas pode ser a idade,  visto que cada um freqüenta lugares diferentes da cidade e tem diferentes gostos por diversão.
Ignorar que cada pessoa tem um ponto de vista subjetivo da realidade que o cerca é desconsiderar a existência do outro. Quando isto acontece, vemos coisas grotescas, como dizer que uma pessoa é triste porque não teve pai e nem mãe. É como dizer que um menino ou menina é o que é por causa de sua condição social na infância. Não sabemos como a outra pessoa representa o que viveu, para muitos foi exatamente um passado difícil que fez deles pessoas maravilhosas. O ideal seria você perceber que o mundo só é como você o vê para si mesmo.


Rosemiro A. Sefstrom

segunda-feira, 7 de março de 2016

Marca registrada

Toda organização quando nasce tem um nome de registro, quando o empresário vai ao cartório de registra sua organização dá a ela um nome e todo documento passa a levar aquele registro. Este registro é muito parecido com o feito quando nasce uma criança, você pega o documento de nascimento do hospital leva ao cartório e ali sacramenta a graça da criança. Mas uma organização tem um nome chamado de nome fantasia que também é conhecido como fachada ou marca empresarial. O nome jurídico de uma organização em alguns casos coincide com o nome fantasia, mas em muitos casos não. Passando da organização para o seu líder, quero fazer uma comparação, bem simples, mas muito importante.
Quando você pensa numa organização normalmente pensa no seu nome fantasia, ou seja, a marca registrada que é divulgada em rádio, televisão e jornal. De forma que em alguns casos só a marca da organização vale mais que todo o seu patrimônio, seria o caso Apple que em 2015 teve sua marca valorada em 128,303 bilhões de dólares. No interior destas organizações existem diversas lideranças, mas dentre todas há um ou alguns que se destacam, por serem eles as figuras ligadas ao nome da organização. Algumas destas lideranças são reconhecidas antes mesmo das organizações, mas qual seria a importância disto? Estas organizações têm diversos líderes tão competentes quanto a figura caricata divulgada nos meios de comunicação. O que faz com que estes líderes tenham sua marca registrada?
Existem alguns palpites que podem orientar a reflexão, o nome fantasia de uma organização vale tanto quanto inspira nos consumidores, seja de qual classe social for, a necessidade de ter seus produtos. Alguns dizem que o nome fantasia precisa ser simples, algo fácil de ser lembrado, para que o consumidor não tenha dificuldade de pedir na hora de comprar. Isso nem sempre acontece, algumas tem o nome fantasia bem complicados, por isso é apenas recomendado. O nome fantasia ou marca pode estar transmitindo ao consumidor a ideia de confiança, economia, facilidade, agilidade, criatividade, inovação, etc.. O consumidor identifica na marca algo que lhe atrai e sua quase que necessidade de ter o produto gera tal demanda que o produto passa a ter valor a ele que pagará, em alguns casos, bem mais caro por ele.
Um líder, podem ser citados alguns grandes nomes como Steve Jobs da Apple, Bill Gates da Microsoft, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira da AB Inbev, Silvio Santos do SBT. Em cima de cada um destes nomes existe uma marca, não pela organização que construíram ou conduziram, mas pelo nome fantasia que criaram para si mesmos. Alguns criaram o líder fantasia ou marca registrada quase que naturalmente, foram aos poucos tomando atitudes que os tornaram referências em seu meio de atuação. Outros investiram muito tempo e dinheiro para se tornarem o líder fantasia que desejavam ser, nem por isso conseguiram.
O executivo que criou uma organização e se tornou ao longo dos anos o líder fantasia cumpre o papel de arregimentar as pessoas em torno de si pelo simples fato de estar na organização. Assim como o consumidor se junta a outros consumidores pelo desejo que tem em ter o que esta ou aquela marca oferece, os colaboradores da organização também se juntam em torno do líder fantasia pelo que ele as oferece. Quando uma organização perde o seu líder, perde em muitos casos a razão de existir e aos poucos definha até ser comprada ou falir. O líder fantasia cria no liderado, mesmo que sem saber, a necessidade de sua presença e orientação. Se os colaboradores não tem em sua organização um líder que inspire esta vontade, provavelmente não existe um líder fantasia competente para tanto. Nestes casos há uma grande chance de se perder importantes colaboradores para uma organização que tenha um líder forte, com marca registrada.

Rosemiro A. Sefstrom