Encontro Nacional

Encontro Nacional

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Terapia de casal

Das muitas experiências que um consultório lega a um terapeuta, a terapia de casais é, para mim, uma das mais interessantes. Casal, palavra que vem do latim casale ou ainda do latim casalis, quer dizer algo que pertence à casa, podendo também ser interpretado como doméstico. O casal também é tido como a união entre duas pessoas, estes formam um casal, seria então o casal algo próprio da casa, doméstico, assim como a união entre duas pessoas. O sentido que interessa aqui é a união entre duas pessoas, sendo que em muitos casos essa união não é harmoniosa, existem ruídos que prejudicam o bom andamento da relação. Quando os ruídos se tornam mais fortes alguns casais procuram ajuda, procuram uma terceira pessoa que possa mediar a relação. O homem ou a mulher, enfim, o que busca ajuda relata uma série de situações que precisam ser resolvidas para que a relação funcione bem.
No início do trabalho há apenas uma versão da história, um dos lados conta o que está funcionando mal, para ele os problemas são claros. Ao longo do processo, algumas vezes é possível trazer o marido ou a esposa, este ou esta vem contar o outro lado da história e dizer o que para ela(e) não está funcionando bem. Esta é a parte mais interessante, perceber o que, em cada um, é percebido como falho na relação. Até o momento ainda não vi um casal em que os dois concordem com o que causa ruído, cada um aponta questões diferentes como origem dos problemas na relação. A partir dos relatos, e coletados os dados de cada um dos dois é possível perceber que em muitos casos o motivo é o mesmo, mas a maneira como cada um vê é diferente. Isto quer dizer que o problema enfrentado pelo casal é o mesmo, mas cada um sente de maneira diferente e, por isso, relata de maneira diferente o ruído na relação.
Uma mulher, por exemplo, chega no consultório e aponta como problema de sua relação a dificuldade de conversar com o marido, que ele já não lhe escuta mais, não tem mais tempo para ela. Depois de alguma insistência ele vem ao consultório e se abre dizendo que o problema é ela que cobra demais, sempre quer mais, por mais que tenha parece que sempre está faltando alguma coisa. Muitos casais esquecem-se com rapidez como se conheceram, como conviviam nos primeiros anos de casamento, o que lhes fazia feliz juntos. Em muitos casos a solução para o casal é simples: basta recuperar o que foi perdido ao longo do caminho, o diálogo. Em outros casos, como o do casal acima, o auxílio do terapeuta pode estar em apontar para cada um onde está o real ruído, fazendo com que cada um observe a si mesmo no relacionamento.
Assim o marido pode percebe que não está mais dando tanta atenção à esposa porque agora tem filhos, dois para ser mais exato e estes tem a mensalidade da escola. Para pagar as contas ele aumentou o tempo de trabalho na empresa para não faltar dinheiro e dar o necessário à esposa e às crianças. Mas também ele não observa que ela sente sua falta, que precisa de um tempo com ele, não para falar sobre as contas, sobre os filhos, mas para cultivar o relacionamento amoroso. O relacionamento que existia ao longo do tempo foi murchando e se tornando um contrato burocrático entre um mantenedor e uma associação educativa, nem homem e nem mulher existem mais. O homem pode voltar a ver sua mulher, a pessoa com quem ele se casou e conversar, voltar a alimentar a relação e quem sabe eliminar os ruídos.

Rosemiro A. Sefstrom

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Viver não é preciso


Há alguns dias conversava com uma pessoa quando ela citou-me Fernando Pessoa, dizendo uma de suas célebres frases: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Por muito tempo me detive no poema e pensava que o autor dizia, como fala na frase logo abaixo do poema que viver não é necessário, mas criar. No entanto, neste dia, a pessoa com quem conversava se referiu a um outro sentido para a mesma frase. O que mais achei interessante foi que não foi necessário mudar se quer uma palavra para darmos um sentido totalmente novo a frase. Apenas trocarmos o preciso de necessidade, ou seja, aquilo que precisamos para alguma coisa por objeto de uso para preciso de precisão. Assim, o preciso que era necessidade se torna o preciso de acerto, metodologia que garante um resultado. 
Depois dessa troca de significado da palavra começamos a divagar a respeito da precisão da navegação e da vida. Para isso perguntei-lhe se a vida não era precisa, ou seja, exata. Ao que me respondeu com um grande sorriso: “Não, como poderia, a vida é cheia de inexatidões, voltas e revoltas!” No entanto a mesma pessoa que se referia a vida de uma maneira tão aberta, livre era a mesma que pensava e vivia muitas verdades lineares.
Junto com ela muitas outras pessoas pensam na vida como um lugar de liberdade e escolhas, mas na realidade fazem da vida uma encenação onde palco e roteiro já estão definidos. Algumas vezes ouvi o discurso que se segue como testemunho de um roteiro: “Com tantos anos iniciei minha vida escolar, portanto, quando eu tiver com tantos anos devo estar na faculdade e assim, com tantos anos devo ter o mestrado. Bom, não posso esquecer da vida pessoal. Quando estiver na faculdade vou arrumar uma namorada (o) e provavelmente logo depois da formatura faremos o casamento. Dois anos de casado teremos filhos e organizaremos o planejamento de como será nossa velhice...”
Não há problema nenhum em planejar, orientar a própria vida ou até mesmo esquadrinhar as possibilidades de futuro, mas tornar-se refém de um planejamento... para a navegação a precisão é o que garante o destino correto. Mas, quanto a nossa vida, temos como garantir que nossa bússola aponta para a direção certa? Não temos nenhuma dúvida? Não há a possibilidade de errarmos no caminho? Não são poucas as pessoas que nos dias atuais sofrem porque não são o que planejaram ser, mas nunca pensaram se não são o que deveriam ser. Será que não estamos no lugar e na hora em que deveríamos estar?
A precisão matemática é importante para lidarmos com números, proporções, economia, geografia, mas na vida...

Rosemiro A. Sefstrom

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Conhece-te a ti mesmo

Fazendo uso de uma máxima socrática existem muitas teorias que afirmam ser o conhecimento próprio um passo essencial para que possamos nos ajudar a resolver os problemas da vida. Muitas pessoas acreditam que seja assim e procuram incessantemente o conhecimento a respeito de si próprias. Para estas pessoas, é possível que utilizem as ferramentas do conhecimento científicos para si próprias, tornado-se objetos de estudo de si mesmas.  Exemplificando: quando estudo a mim mesmo, entendo sou meu objeto de estudo, neste caso, estarei elaborando ideias e conceitos que identificam o que chamamos “eu”. Para algumas pessoas, isto é de uma facilidade interessante, mas para muitas, isso simplesmente não é possível, simplesmente porque elas não conseguem se ver. São pessoas que passam a vida sem que achem um espelho existencial no qual possam se ver. Existem outras pessoas que conseguem se ver, mas o espelho que usam para ver a si próprias é cheio de deformidades e estas pessoas vêem algo que não é real. Apenas para ilustrar, acredito que você conheça pessoas que se dizem duronas, racionais, mas que choram com grande facilidade e resolvem suas questões na empresa emotivamente.
Para a pessoa que consegue se olhar e ter a si  mesma como objeto de estudo, precisamos saber o que ela deseja saber a respeito de si. Algumas pessoas dizem se conhecer, mas o que sabem não vai além do peso, cor do cabelo, tipo de pele, altura, etc.. Esse conhecimento é o mais simples, são conceitos que obtemos pela relação com o mundo, ou coisas que nos rodeiam e qualquer um poderia constatar. Outro conhecimento muito buscado é o das emoções, saber a respeito do seu ser interior, quanto ao amor, o ódio, a raiva, o rancor. Com este tipo de informação uma pessoa poderia saber por que ama uma determinada pessoa e não outra. Também poderia saber o que acontece nas muitas vezes que ama pessoas que deveria odiar, assim como odeia pessoas que deveria amar. Saber a que tipo de conhecimento desejamos quando pensamos em nós mesmos já é um bom ponto de partida.
No entanto, muitas pessoas desejam ansiosamente conhecer a si próprias e esquecem um velho ditado: “Cuidado com o que desejas”. Muito bem, a pessoa dedicou bom tempo da sua vida estudando a si própria e descobriu que ele mesmo é quem está fazendo sua empresa ir mal. Percebeu que se relaciona mal com as pessoas da empresa, que não tem visão de mercado para grandes negócios, que seu negócio iria muito melhor sem ele. Isso parece bom porque ele identificou um ponto fraco no seu negócio, mas será que ele estar dentro da empresa não é o único motivo pelo qual ele ainda vive? Outro caso pode ser de uma pessoa religiosa, que sempre viveu muito bem, mas que descobriu a respeito de si mesma que é avarenta, invejosa, pecadora. Pior que isso, é que muitas vezes o que estas pessoas descobrem a respeito de si mesmas nem é verdade, mas aceitam mesmo assim, pois foi descoberto.
Para algumas pessoas, saber a respeito de si é algo que não lhes interessa e vivem muito bem sem saber. Não há um motivo, uma razão pela qual tenhamos a obrigatoriedade de conhecer a nos mesmos. Se e somente se o conhecimento de nós mesmos for algo positivo é que deve ser estimulado, caso contrário, como diria John Lennon: “A ignorância é uma espécie de benção. Se você não sabe, não existe dor”.

Rosemiro A. Sefstrom