Encontro Nacional

Encontro Nacional

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Texto Sem Contexto

Na semana passada abri o Facebook para postar o texto da semana e percebi que fui marcado numa imagem. Abri a imagem e junto a ela havia um texto bastante longo que falava sobre as palavras imutáveis da Bíblia, ou seja, que as palavras do texto Bíblico devem ser entendidas à risca. Uma das frases do texto: “Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo ou contrato alguém para fazer a vontade de Deus?” Essa é apenas uma das muitas frases que apontam a literalidade do entendimento bíblico. Cito ainda outro trecho do escrito: “Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levítico 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a minha esposa ? Eu tenho receio que ela se ofenda comigo”. Esse texto me fez refletir sobre princípios básicos que fazem da Filosofia Clínica uma ferramenta tão objetiva.
Uma das bases essenciais para o entendimento de qualquer pessoa para a Filosofia Clínica é a historicidade, ou seja, para os filósofos clínicos todo ser humano é dotado de história. A história é contada pela própria pessoa ao terapeuta que apenas ouve atentamente a construção de uma auto biografia. É claro que ao longo da narrativa alguns dados serão omitidos, outros mentidos, talvez distorcidos, aumentados, mas esta foi a maneira como a pessoa relatou. A história de vida da pessoa faz com que tudo que ela vive hoje ganhe contexto.
O contexto segundo o Dicionário de Filosofia de Abbagnano (...) é o “Conjunto dos elementos que condicionam, de um modo qualquer, o significado de um enunciado”. O contexto pode ser considerado o que em Filosofia Clínica chamamos de Exames Categoriais, ou seja, Assunto, Lugar, Tempo, Relação e Circunstância. Com as categorias, um filósofo pode identificar elementos que ao envolverem o enunciado podem significá-lo, pode dizer de onde aconteceu, em que tempo histórico, quais as relações, suas circunstâncias. Um texto sem contexto não é nada. Usando uma analogia pergunto: Como seria se você andasse de carro de boi? Bom, nada de anormal, mas se perguntasse um pouco melhor: Como seria se você andasse de carro de boi no centro de Criciúma? Isso pode lhe parecer muito estranho, mas é o que acontece com quem toma um assunto fora de seu contexto. O que se deve fazer é atualizar os dados de forma que eles possam se enquadrar nos novos contextos e aí sim ver se os assuntos ainda tem validade ou não.
Voltando ao caso da Bíblia, sem favorecer nenhuma religião, suas verdades são tomadas como imutáveis, ou seja, conteúdos atemporais. Em clínica muitas pessoas fazem o mesmo: pegam conteúdos de suas histórias e os tornam atemporais. Assim acontece quando o pai trata sua filha como uma menina indefesa, não esquecendo que o pai tem por volta de oitenta anos e sua filha cinqüenta. É assim que acontece quando uma mãe olha para um filho como o maior monstro do mundo por ele ter sido uma criança sapeca. Os dados históricos da vida dessas pessoas cristalizaram e com estes dados as suas práticas. Para não cometer o erro de tratar a pessoa com conteúdos caducos, o filósofo clínico precisa, além de fazer o Exame das Categorias, prestar atenção aos dados padrões e aos dados atualizados.
Os dados padrões são aqueles que indicam como normalmente a pessoa funciona, quais são os caminhos rotineiros no seu estado de ser. Já os dados atualizados indicam o que ao longo do tempo vem se transformando ou até mesmo o que mudou de uma semana para outra. Se os pregadores de verdades imutáveis abrissem os olhos aos dados padrões poderiam sim ver que há coisas que não mudam, mas há outras em que há muito não são as mesmas. Aquele pai que olha a filha como uma menina indefesa pode sim olhar para a filha como ela é, mas precisa atualizar dados como tempo, lugar, relação, circunstância. Entender que as práticas do passado estavam rodeadas de elementos que as condicionavam, que davam significados a elas. Se trouxermos as práticas do passado sem atualizarmos os elementos vizinhos elas podem ter um significado muito diferente do que se deseja.
Por fim gostaria de render os méritos do texto bíblico, segundo a postagem do Facebook, a Jodan Campos.

Rosemiro A. Sefstrom

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Re-unir os cacos!

Em Filosofia Clinica existe um procedimento clinico, ou seja, uma ferramenta que o filósofo usa no seu trabalho que se chama reconstrução. A própria palavra já diz praticamente tudo, é uma ferramenta que possibilita ao terapeuta remontar à pessoa situações que viveu e que se perderam. No dia-a-dia muitas pessoas já usam a reconstrução, fazem o processo de recuperar antigas vivências, mas nem sempre de maneira produtiva. O terapeuta, quando precisa usar esta ferramenta, ele sabe o que vai reconstruir junto com a pessoa. O relato Werther no livro Os sofrimentos do jovem Werther mostra um pouco de como funciona essa técnica.
“Foi um magnífico nascer do sol: a floresta úmida e a planície cochilavam. Ela perguntou-me se eu não queria fazer o mesmo acrescentando que eu não me acanhasse por causa dela.
_ Enquanto eu puder ver esses olhos abertos – respondi, olhando-a intensamente -, não corro o risco de adormecer ”. (Página 37)
No relato acima a pessoa reconstruiu boas memórias, um momento em que provavelmente viveu algo muito bom. Mas nem sempre é assim, existem muitas pessoas que passam os dias retomando memórias, emoções, sensações, muito ruins. Estas pessoas habilidosamente pegam um evento em sua vida que lhes causa grande sofrimento e retomam desde o início até o fim. Em cada pedaço de sofrimento, até que este sofrimento esteja presente agora, assim como foi no passado.  O problema é que estas pessoas fazem reconstruções de coisas que lhes fazem mal, usam uma ferramenta poderosa para machucar a si própria e os que a rodeiam.
Outras pessoas ao longo da vida quebram, uma empresa, um casamento, um namoro, uma amizade. Os motivos pelos quais elas quebram não vem ao caso, mas interessa saber que muitas delas querem reconstruir o que quebrou. Algumas destas pessoas reconstroem tudo com tanta perfeição que até mesmo os defeitos que haviam na empresa, relação. Esse tipo de reconstrução levará a pessoa a reviver tudo novamente, ou seja, provavelmente irá quebrar outra vez.
Há quem diz que se reconstruir um casamento faz com que ele não seja mais o mesmo, verdade. Em muitos casos ele fica muito melhor, algumas pessoas, diferente daquelas do parágrafo anterior, quando reconstroem, elas aprendem com os erros de sua última construção. Pessoas assim costumam caminhar para frente, aprendendo com as vezes que quebraram.
No entanto, muitas pessoas não usam este procedimento, muitas pessoas quebram e deixam os pedaços pelo caminho. Para estas o passado é diferente do presente, que vai ser diferente do futuro e não há motivos para ficar reconstruindo se podemos fazer coisas novas. Para quem vive com pessoas que não fazem reconstrução uma dica, quando estas pessoas quebrarem algo, provavelmente não tem volta. E elas pode quebrar um casamento, uma amizade, um grande amor, mas mesmo querendo, não vão voltar. Para estas pessoas a vida só caminha para frente, não há como reunir as peças.
Reconstruir é juntar os cacos, reorganizar as partes em torno daquilo que antes já foi um todo. Usar este procedimento pode ser de grande valia se estivermos reconstruindo boas memórias, sentimentos, ideias, sensações. Da mesma maneira a reconstrução pode ser um Calvário aos que retomam suas piores dores, seus piores pesadelos.

Rosemiro A. Sefstrom

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

TransitórioTransitório

Em alguns anos de terapia comecei a perceber que algumas pessoas são afligidas por um pequeno problema: a passagem das coisas. Uso a palavra coisas porque tudo o que está ao redor destas pessoas não pára, não permanece exatamente como está, inclusive elas mesmas. Este pequeno problema começa a aparecer quando estas pessoas começam a pensar em sua vida como uma linha do tempo, deixam de olhar a vida como experiências isoladas e passam a perceber o contínuo. Ao perceber a transitoriedade descobrem que estão sujeitas também às mudanças e em cada caso existem mudanças que assustam mais. Para algumas pessoas o que as assusta é a possibilidade que a passagem do tempo possa levar as pessoas que elas amam, pai, mãe, irmão, marido, filhos, etc. Outras pessoas têm medo de perder sua aparência física , são devotos do próprio corpo, passam horas ao dia cultivando a beleza que temem perder. Um último exemplo são as pessoas que veem na passagem do tempo o problema de terem de mudar, se adaptar, renovar, ou seja, para elas o ideal é que as coisas continuassem sempre assim, pois estavam boas do jeito que estavam.  
Estas pessoas que se assustam com a passagem do tempo, em boa parte, estão agarradas a algo que têm medo de perder com o passar dos dias. Não percebem que a vida acontece no agora, que tudo o que está a sua volta faz parte da vida como transitoriedade, ou seja, são coisas que estão de passagem, inclusive elas mesmas. Essa transitoriedade remete a um conceito simples: participação, ou seja, tudo quanto faz parte de minha vida agora, participa de minha vida agora. Hoje você tem um carro modelo X, ano X, valor X, mas daqui há algum tempo compra outro e este deixa de participar de sua vida. Uso o carro como um primeiro exemplo desta participação porque é um bem do qual muitas pessoas se desfazem com certa facilidade. Mas uma casa também pode servir de exemplo, a casa ou apartamento no qual você vive participa de muitas coisas. É interessante perceber que tudo o quanto pode ser vivido está apenas de passagem, elas participa de sua vida e você participa destas coisas, mas apenas momentaneamente. Mesmo as coisas que estão há muito tempo com você também estão de passagem, apenas têm um tempo de passagem maior que outras.
Quanto for possível perceber que tudo participa de nossa vida e nós participamos destas coisas se tornará possível escolher quando e quanto participar. Se você percebe, por exemplo, que seu marido está de passagem em sua vida, a participação dele pode ser muito melhor aproveitada. O mesmo pode acontecer com ele em relação a você, ele pode querer participar muito mais de você. Pense em sua casa, o quanto você participa daquilo que dispõe? Há muitos dos casos em que a mulher ou o marido compram objetos e os guardam, estes objetos acabam não participando de suas vidas de fato, estão ali, deixados de lado. A participação lembra que é possível viver ao máximo um fim de semana na praia, porque ele passa, mas eu posso participar dele ou ficar chateado porque ele vai passar.
A noção estática da vida faz com que boa parte das pessoas pare no tempo, deixe de se atualizar, deixe de se melhorar. Por incrível que pareça, algumas pessoas deixam de participar da própria vida. Participar das coisas que estão ao nosso redor e permitir que elas participem de nossa vida é uma das maneiras de viver o agora, tanto com vinte quanto com cinqüenta anos de idade. Em cada etapa a participação é diferente, não melhor nem pior, apenas diferente.

Rosemiro A. Sefstrom

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Jeito de ser!

Talvez você conheça uma pessoa assim, ela repetitivamente cria objetivos, terminando um, logo cria outro. Além disso, ela se vê presa a cada objetivo que cria e não consegue levar sua vida adiante a menos que termine o que começou. Três fatores que aparecem acima são interessantes, o primeiro é a repetitividade, ou seja, a característica de se repetir sempre um mesmo movimento. A segunda característica que aparece é a de criar objetivos, ou seja, metas, lugares onde chegar. Em algumas pessoas é comum a característica de desejar, querer, intencionar. E a terceira e última é a prisão que cada objetivo representa, uma vez que prende a pessoa ou instituição ao objetivo. Para reconhecer pessoas que funcionam assim é bastante simples, basta perceber se a pessoa a diz que não consegue parar, que tem que terminar.
O primeiro fator a ser verificado é a repetitividade em forma de ciclo, que podem ser desde ciclos muito pequenos até ciclos muito grandes. Desde tomar banho uma vez por dia até ir visitar um parente distante a cada dez anos. Estes ciclos são chamados em Filosofia Clínica de Paixões dominantes, um motivo muito simples para isso é a força que os ciclos exercem sobre a pessoa. De onde isso vem? Isso dependerá de cada pessoa, não há um motivo específico. Uma pessoa que tem as paixões dominantes fortes tende a repetir e repetir os comportamentos, mesmo que não veja neles significado algum. Para algumas pessoas sair do ciclo gera medo, insegurança, ansiedade, enfim, não sentem-se bem. Em outras pessoas é justamente o contrário, a rotina é que lhes dá a sensação de segurança, bem estar. Estes ciclos não são bons e nem maus, o significado que é dado por cada um é que os faz serem o que são. Como fazer o balanço de uma empresa, para alguns momentos de alegria, momento de contabilizar o sucesso de um trabalho bem feito. Já, para outros este momento é um momento de chateação, uma vez que o que tem para contabilizar já há um tempo são os pré-juízos.
O segundo fator são as orientações criadas pela pessoa em cada ciclo, buscas que a pessoa ou instituição cria. Uma busca é um direcionamento, um anseio, uma vontade, desde as mais próximas até as mais distantes. Cada pessoa ou instituição, de acordo com sua estrutura, tem determinadas buscas, direcionamentos. Não há nada de mais e é muito normal que pessoas, empresas, instituições tenham objetivos diferentes. Uma empresa quando cria um planejamento anual, o termo anual já dá o ciclo onde ele acontece, ela está apontando determinadas direções para este ano. Boas ou más elas deverão ser concretizadas, como forma de cumprir o ciclo. Na vida pessoal não é diferente, para as pessoas que funcionam assim. Pessoas que criam objetivos de curto, médio ou longo prazo, estão dando às suas vivências um direcionamento. Se irão chegar onde querem, isso realmente dependerá da trajetória e de vários outros fatores ligados às estrutura de cada um.
No terceiro fator está a Armadilha Conceitual, o termo sugere que a armadilha é e existe somente enquanto conceito. E é assim mesmo, a prisão só existe se aquele que estiver preso conceitualmente se sentir assim. Como um empresário que olha para a empresa e diz: “Acho que fiz o que podia ser feito, vai quebrar”. Ao seu lado um jovem funcionário diz: “Há uma saída”. Enquanto um vê o fim do túnel, o outro vez a luz no fim do túnel, ou seja, a prisão dependerá do ponto de vista de quem está olhando. Uma armadilha é uma prisão, um mecanismo que lhe impede de sair do lugar. Para fazer um exercício bem simples e entender, pense no que lhe impede de sair correndo e gritando agora. Tudo o que você pensar é uma armadilha. Não é que você não possa, mas existem mecanismos que dizem que você não pode e você acredita neles.
Juntando tudo, temos uma pessoa que a cada tempo quer algo e vai em busca, sem terminar não pára. Não há nada de errado em ser assim e viver assim, mas algumas pessoas a certo ponto da vida acham sinceramente que já está bom onde chegaram, mas não conseguem viver sem estar buscando. Para outras o problema está nos objetivos que colocaram são inatingíveis, a pessoa quer seguir em frente, mas estão presas. Podem acontecer diversos outros tipos de problemas que levem a pessoa a não viver bem. Cada está estruturado diferente dos outros e é exatamente por isso que os problemas de vida de cada um, são imensamente diferentes dos problemas da vida do outro.



Rosemiro A. Sefstrom

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Pessoa certa, tempo errado!

Em Filosofia Clínica, antes de entrar na análise dos pormenores dos dados da historicidade da pessoa, o filósofo observa os Exames da Categorias. Esta etapa é aquela na qual o terapeuta observa na narrativa da pessoa como ela se localiza existencialmente no mundo em que se coloca. A localização existencial é dada pela pessoa mesmo, ou seja, não é o filósofo que interpreta estes dados a partir da história, e sim, percebe literalmente segundo o que é contado pela pessoa. As categorias que ele observa são: assunto imediato e último, circunstância, lugar, tempo e relação. Em cada uma destas categorias se observa como a pessoa está existencialmente em cada etapa de sua vida.
É interessante o estudo destas categorias porque algumas vezes o problema que deverá ser trabalhado nada tem a ver com os tópicos da Estrutura de Pensamento. Em vários casos o problema está na localização da pessoa, ou seja, onde ela se colocou existencialmente. Uma das categorias nas quais pode ocorrer problemas pode ser o tempo. Nesta categoria o filósofo se dedica, a saber, qual é a relação entre o tempo subjetivo e o tempo convencionado. Ele verá, segundo as vivências da pessoa, a duração dos eventos e o tempo verbal em que eles são vividos. O tempo subjetivo diz respeito ao rápido ou demorado que costumeiramente se diz. Como uma pessoa que afirma que nos dias em que as coisas vão bem ela sente como se o tempo passasse mais rápido, assim como o contrário. Só é possível que a pessoa diga que o tempo passou rápido se houver um parâmetro de comparação, e tal parâmetro é o tempo do relógio. Então, a relação entre o tempo convencionado do relógio e a sensação temporal da pessoa é que dão ao filósofo a possibilidade de dizer qual é a localização temporal das suas vivências.
Mesmo falando de um só tópico, apenas no parágrafo anterior encontram-se teorias de nada mais nada menos que Aristóteles e Kant. Não se trata de uma cópia de suas categorias, mas sim, uma adaptação dos conceitos desenvolvidos pelos dois para o trabalho terapêutico..O tempo, como já conceituado anteriormente, é a categoria que cuida da relação entre o tempo objetivo e subjetivo.
No consultório, dia destes, um partilhante dizia que já era tempo de encontrar alguém na vida que lhe fosse “completar”, em suas palavras: “Alma gêmea”. Depois de alguns meses de trabalho, a pessoa encontrou um par, segundo ela, perfeito. Conversa vai, conversa vem e o que parecia perfeito acabou se revelando um problemão, pois a pessoa perfeita era 20 (vinte) anos mais nova e isso tornava o relacionamento impossível. Não é que assim seja para o terapeuta ou para a sociedade, mas segundo os valores da pessoa era algum inimaginável, muito menos praticável. Veio então a expressão: “Pessoa certa no tempo errado”. Esta pessoa estava agora, depois de se constituir na vida, no tempo de aproveitar, de abrir as asas e voar, mas precisava de alguém com quem compartilhar este vôo. No entanto, da maneira que aconteceu, não seria a ela possível dar continuidade ao que poderia ser um relacionamento.
A temporalidade é diferente em cada pessoa, o tempo que cada um leva para ser “adulto” é diferente. Vários são os casos nos quais a pessoa é “obrigada” a amadurecer bem mais cedo e o tempo de suas vivências é alterado. Muitas vezes você cruzará com o seu par perfeito no tempo errado, mesmo sendo perfeito, ou é cedo demais ou é tarde demais. O ideal é estar aberto para as experiências, um amor pode vir cedo demais, mas pode vir uma vez só.

Rosemiro A. Sefstrom

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Este clipe da cantora hungara Csemer Boglárka em que interpreta a música Nouveau Parfum ela sofre transformação enquanto canta. É possível levantar uma questão interessante a respeito disto: Para algo ficar bonito precisa ser modificado até não ser mais ele mesmo? Será que uma pessoa que se modificou tanto para ficar bonita ainda se reconhece? E se se reconhece, vê o que tem por fora ou o que está por dentro?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Construção Compartilhada

No final de semana passado, enquanto assistia a comentários esportivos a respeito da rodada que finalizou os campeonatos estaduais, ouvi uma observação pouco dita. Enquanto falavam a respeito dos jogos do final de semana, um dos cronistas criticava tal treinador e tal time. Isso prosseguiu até que um jornalista abertamente disse: “Como é fácil para um ex-jogador, que nem foi tão bom assim, criticar o trabalho alheio. Porque comentar é fácil, gostaria de vê-los fazendo o papel que julgam”. Um ponto de vista interessante do jornalista, mas ele não se dá por conta que, até mesmo o comentarista cumpre um papel. Aquele de que, quando um treinador ou jogador estão muito envolvidos podem esquecer, ou seja, olhar as próprias falhas. O papel do comentarista seria então apontar estes erros , eles estarão apontando.
Assim acontece no filme Encontrando Forrester, onde um menino negro, Jamal Wallace, de classe pobre, consegue uma bolsa numa escola particular. Ele assume sua vaga pelo que escreve, por ser muito bom no que faz, mas melhora ainda mais com a ajuda de um famoso amigo, William Forrester. Seu professor, Crowford, destina todo seu tempo e habilidade para provar que um menino negro e pobre não poderia ser tão bom escritor. Willian Forrester, por sua vez, mostra ao menino que alguns sabem fazer e trilham um belo caminho, enquanto outros podem não saber fazer, mas serão muito bons na arte de abrirem os caminhos. Ao menino, em seu processo de aprendizagem, muitas palavras ditas pelo seu amigo passaram em branco. Eram conselhos de um homem velho que tinha lá suas esquisitices. Em muitas vezes Jamal se nega a aceitar as críticas como se já soubesse caminhar com as próprias pernas, mal nota que ainda repete os passos daquele que o ensina. Ao final do filme o rapaz pega um texto produzido conjuntamente com seu amigo e apresenta ao professor Crowford. Este, por sua vez, descobre que o escrito era um plágio de um antigo trabalho publicado numa famosa revista. Para se redimir do erro e continuar estudando seu professor exige uma retratação pública. Jamal se nega a fazer uma retratação pública, mesmo sabendo que teria de deixar a escola. William Forrester, amigo de Jamal, claramente diz que cada um assume a responsabilidade pelo que faz, mas decide intervir pelo aprendiz e amigo. Durante todo o filme o jovem precisou desconstruir o que achava que sabia para realmente aprender, o mesmo aconteceu com seu amigo.
Tanto um quanto o outro no processo de se conhecer foram deixando de lado os pontos de diferença e encontrando os pontos de igualdade. Este processo levou o menino ao aprendizado e desenvolvimento de sua escrita, ao passo que seu mestre reaprendera o valor da vida e recuperara alguns sonhos há muito perdidos. Ao esquecerem as diferenças e viverem no espaço que chamamos de interseção eles construíram de forma compartilhada uma nova vida. Um novo caminho, que já não fazia mais distinção entre um e outro, mas um caminho do meio que contemplava as duas partes. Cada um apontou os pontos cegos da vida do outro e vagarosamente foram melhorando um ao outro, cada um de acordo com suas capacidades.
Quantas vezes você parou para ouvir uma pessoa que lhe criticou ou apontou uma falha sua? Não estou falando de um completo estranho em uma fila de banco, mas alguém que tem com você uma caminhada. Uma pessoa que sabe de onde você vem e para onde se encaminha. Boa parte das vezes o que se ouve é a proposta do jornalista: “Faça você então!” Não se trata de fazer melhor, mas de ensinar a fazer melhor. Muitos acham que porque cometem certos erros, todos o cometem, esquecem que há muito conhecimento para aprenderem, muitas vezes com alguém mais novo. Não se trata de estar certo ou errado, mas de ouvir o que o outro diz e avaliar se ele realmente tem razão e, caso tenha, entender que também podemos cometer erros.

Rosemiro A. Sefstrom