Encontro Nacional

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sísifo

Um mito muito conhecido na filosofia mas pouco conhecido no senso comum é o Mito de Sísifo. Este conta a história de um jovem de nome Sísifo, o qual era muito astuto e enganou os deuses por duas vezes. Cada uma das vezes que enganou os deuses foi reconduzido ao Tártaro, algo similar ao inferno. Na terceira vez que foi aprisionado, recebeu o castigo de rolar uma pedra de mármore até o topo de uma montanha. Cada vez que atingir atingisse o topo rolando a pedra, ela rolava novamente até o ponto de início e ele começava tudo novamente. Este mito tem diversas interpretações. Albert Camus, por exemplo, fala que mostra alguém que queria viver a vida ao máximo e foi condenado a uma tarefa sem sentido. Algumas pessoas fazem o mesmo que Sísifo: passam a vida rolando conteúdos existenciais que deveriam ser deixados de lado, abandonados pelo caminho. Mas, quando mais se dedicam a estas coisas, como o personagem à sua pedra, mas estas coisas fazem parte de sua vida.
Naturalmente aprende-se que o que desejamos afastar deve ser empurrado para longe e lá deve ficar. Isso pode ser visto em diversos lugares de nosso cotidiano: quando uma pessoa não quer mais um sofá, ela o pega e leva ao lixo. Dali o velho sofá segue o seu caminho até que não exista mais. Assim também acontece com a sujeira do corpo, toma-se o banho e ao lavar-se a água leva embora o que nos matinha sujos. Só que não aprendemos como afastar aquilo que existencialmente está em nós, ou seja, afastar algo que é parte nossa. Não foi ensinado o que fazer com a mágoa que corrói o coração, com um amor que sabidamente não pode ser vivido, com a dor da perda de alguém que pode ser irremediável. Não é possível depositar estas coisas num saco plástico colocá-lo no cesto que fica do lado de fora do muro e esperar que alguém dê o destino. Assim como não é possível entrar em baixo do chuveiro ensaboar-se e tirar com água aquilo que maltrata a alma.
O que se ensina como maneira de lidar com este tipo de dor é que devemos colocar para fora, vivenciar, não desviar a cara, enfrentar o que tanto incomoda. Em todos estes ensinamentos a pessoa é levada em direção aquilo que traz sofrimento e mais do que isso, é obrigada a vivenciar esta dor supondo que passará. Em alguns casos, somente pesquisando a história da pessoa é que saberemos se é assim para ela, se é possível realmente que a pessoa viva a dor e depois siga a vida em frente. Em muitos casos, ao vivenciar a dor a pessoa está aumentando aquilo que gostaria de diminuir, ou seja, ao tentar afastar-se ela está fazendo o contrário. Este movimento de aparente solução é um método não apropriado em muitos casos, a pessoa ao reviver a situação falando, vendo, lendo, ouvindo está tornando o sofrimento presente em sua vida.
Para exemplificar: há pessoas que buscam desesperadamente livrar de si a inveja e prestam tanta atenção nela, cuidam tanto dela que isso faz muito mais parte de sua vida do que a humildade.
 Pessoas que se concentram muito na dor, em sua forma, dimensão, extensão, estão fazendo desta dor muito mais parte de si do que os bons pensamentos que podem ter. Quando se coloca algo a frente da pessoa e ela se coloca a empurrar, enquanto estiver empurrando, este objeto fará parte dela, de suas vivências de seu ser. Se a pessoa coloca a sua frente amor, amizade, perdão, humildade, isso será parte dela, e estes caracteres serão muito mais parte dela do que coisas com as quais ela não se ocupa. Nem tudo que se deseja afastar é necessário empurrar, algumas coisas estão passando e só farão parte da vida se houver dedicação em torno delas.

Rosemiro A. Sefstrom

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